Lúcia



O despertador toca 7h. Estou meio tonto como de costume, chão frio sob meus pés, vejo o  quarto do hotel, ainda está escuro, o sol só começa a nascer. Vou ao banheiro e olho meu reflexo no espelho, barba por fazer, estou com mãos geladas e tremulas. Olho as pílulas, elas sempre me ajudaram, lembro o que vivi sem elas, minha infância e adolescência confusas em Brasília, noites sem fim com insônias e outras coisas que não gosto de falar. Essas pílulas me livram daquela pessoa e me trazem à realidade, ou será que elas me tiram da realidade?  Lúcia, nunca teria chegado aqui sem você. Mas, hoje não quero vê-la, hoje é o meu dia. Encho o copo d'água e me preparo para tomar as pílulas. Alguém toca a porta.

- Senhor, bom dia - escuto a voz de Paulo.
- Bom dia.
- Está quase na hora, a equipe já está à disposição.
- Obrigado, meu amigo. Só mais alguns minutos.

Tomo banho, minhas mãos agora estão mais firmes e me sinto confiante. Faço a barba e penso nas atividades da manhã. Pego um terno claro, camisa branca, sapatos pretos. Coloco a gravata vermelha e dou um nó duplo. Pego um relógio. Abro a janela, a luz do sol se espalha e me olho no espelho.  Me vejo com  38 anos. Paro por um segundo e penso: quem diria que estaria aqui tão jovem, principalmente, depois de tudo que passei.  Deixo o quarto e vejo Paulo sozinho me esperando no corredor.

- Por aqui senhor, o café da manhã será servido no restaurante do hotel - entramos em um pequeno elevador privativo.
- Onde fica?
- Não se preocupe com nada, após o café vou apresentar a equipe que vai lhe acompanhar  durante o dia de hoje.

Baixo a cabeça, o sono volta por um instante, não falamos nada até a chegada no andar. Entrei no restaurante, tinha um grande salão. Só havia uma mesa e uma cadeira. Paulo puxou a cadeira, sento sem jeito é sem graça. Meu companheiro vai para o final da salão e só me observa fixamente. Não estou acostumado com o tratamento  dos seguranças e a vigia constante. Olho em volta, entrou um garçom, com bigode e barrigudo e com ar formal.

- Bom dia Senhor. O que o Sr. deseja de café?
- Qual seu nome?
- Antônio, Senhor.
- Estou me sentindo meio perdido aqui, tenho certeza que tem ótimas opções neste hotel. Posso te acompanhar até a cozinha e conhecer seus colegas de trabalho?
- Mas, mas, mas, Senhor, posso lhe trazer tudo o que quiser aqui – Levanto e dou um  meio abraço em Antônio, que fica  sem saber como agir. Paulo ao ver a cena faz uma cara de reprovação.
- Antônio, hoje é um dia feliz para mim, aqui está muito parado e pode deixar de tanta formalidade. Vamos Paulo!  Nosso  amigo nos convidou para ir até a cozinha e tomar café - falei alto para ele me escutar no fim do salão.

Antônio me olha sem acreditar e aceitar o que está acontecendo, já Paulo mantém sua  seriedade de sempre e nos acompanha sem falar nada. Chegando na cozinha, todos param suas tarefas e quase que congelam ao me ver. Tentam arrumar seus uniformes. E todos se entreolham. Tem cerca de dez funcionários na cozinha para fazer um café da manhã para mim.  Sinto cheiro de café recém preparado e de pão saído do forno, olho de onde vem, vejo uma funcionária com uma cara de cansada e com uma uma aparência de 60 anos. Ela está incomodada com uma pequena mancha no seu uniforme,  parece que ela tenta esconder um crime.  Vou em sua direção.
 
- Sra. senti cheiro de café e não consegui resistir. Posso pegar uma xícara e provar desse pãozinho com manteiga? 
-  Nós temos comidas melhores, para alguém como Sr., Dr., Presidente - Disse a Sra. com o olhar amedrontado.
- Ainda não sou presidente, sei que trabalhou para muitas pessoas importantes, mas, por favor, me chame de Daniel. Nunca fui muito apegado com formalidades. Não duvido que tenha ótimas comidas aqui, mas será que posso pegar esse pãozinho? Não vou conseguir resistir. Tenho uma proposta - olho para todos - hoje como sabem é um dia de minha posse e não queria comer sozinho,  que tal colocar a mesa o que estiver pronto e comermos juntos? - Pego uma xícara grande de café grande e corto um pão passo manteiga e começo a comer – Srs. não vão me acompanhar?
           
Um jovem aprendiz me olha diretamente e sem formalidades.  Ele saca o celular rapidamente.

- Daniel, podemos tirar uma foto juntos? Queria mandar para meus pais - Tiro fotos com todos, até mesmo com Antônio que foi o mais relutante. Foi divertido aquele café da manhã.

. . .

- Paulo, o que vai acontecer agora?
- Sua equipe chegou Sr., a partir de agora eu me despeço. Foi um grande prazer trabalhar para alguém como o Sr.
- Mas, quando nós iremos nos ver de novo?
- Meu trabalho termina aqui. São as regras. Quando o Sr. precisar estarei sempre por perto.
- Te prometo, vou fazer o meu melhor.
- Eu sei, não decepcione as pessoas que te colocaram aqui e cuidado com quem se relaciona – Ele sorri com um lado da boca por um segundo e volta a seriedade de sempre.
- Pensei que você não sorria. E sobre aquele problema.
- Não se preocupe. Não vi nada. Não sei de nada.  Meu trabalho era estar contigo até esse momento. E está cumprido.
- Ok, obrigado.

Trabalhamos juntos há três meses, a partir de agora serão novas pessoas. Não posso negar que gostei muito de trabalhar com ele. Me sinto seguro com ele. Ele antecipou os problemas e não gostava de saber dos meus problemas. Era fácil enganar outras pessoas por semanas ou até meses, mas ele nos primeiros dias entendeu o que passava comigo.  Era bom saber que podia contar com ele e com sua discrição.

- O Sr. vai seguir com aqueles oficiais -  Paulo aponta uma equipe de seis policiais - eles vão fazer sua guarda hoje com os onze cavaleiros. Instantaneamente, sou levado e entro em um carro para o congresso nacional para realizar o juramento. Vejo Paulo saindo rápido em outra direção. Sei que no próximo ponto irei trocar de carro.

. . . 
 
Na Catedral de Brasília.

- O Sr. vai sozinho? Ainda podemos acertar tudo Sr..
 
Começo a suar frio e  me lembro que não tomei as pílulas! Não tenho mais como voltar e não confio em ninguém para pegá-las! Sinto aquele tremor nas mãos, será que ela já está aqui ao meu lado? A presença dela me deixa inquieto como nunca. Tenho que me controlar. Olho para trás por cima do meu ombro direito. Não a vejo. Mas, a sinto perto. Sim, ela está aqui.

- Sr. quer que providencie para ir com mais alguém? Ainda temos tempo.
- Já não estou mais sozinho. - O oficial me olha sem entender, ele procura alguém, mas não a vê.
-  Quem é? Onde está?
-  Perdão, esqueça, me enganei, pode chamar o carro. - a cada minuto fico mais tenso.

Sem entender, o oficial pega o rádio e diz:

- O Presidente está pronto. Tragam o Rolls-Royce. Vamos começar o desfile.

Imediatamente, a voz dela chega aos meus ouvidos. E passando ao meu lado chega na minha frente.

- Pensei que não ia me chamar. Tratou tão bem todo mundo hoje. Achei bonitinho. - fala Lúcia com uma voz doce.

A vejo linda em um vestido verde e amarelo com brilhantes. Ela sorri, e diz:

- Estou feliz em estar aqui com você. Pare de me olhar com essa cara de bobo meu querido Presidente - ela se aproxima da minha orelha - Vou ficar bem do seu ladinho. Enfim, você não conseguiu sua primeira dama a tempo. E aquela chatinha não irá aparecer. É muito feio um presidente sozinho. Vamos nos divertir meu príncipe

Sinto um beijo no meu pescoço e um calafrio. Porém, tento me fixar nas próximas horas. Como irei fazer com ela ao meu lado? Na verdade ela que ganhou essas eleições. Só repeti o que ela falava nos últimos meses. Ela acabou com os outros candidatos um por um só com palavras. Jogou os políticos mais asquerosos na lata do lixo com um sorriso e elegância. Que droga, queria não depender dela. Ela é imprevisível. Mas, agora estamos mais uma vez juntos e ela está mais linda que nunca. O carro começa a ida para o desfile, recepção no congresso e posterior cerimônia de troca de faixa e discurso. 

Vou perdendo a consciência, mais uma vez...

. . .

O que aconteceu? Onde estou? O que ela fez mais uma vez?  Está tudo escuro, que quarto é esse? 
Uma televisão. Coloco no Jornal. Não acredito!




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