O Senhor

 

- Oi colega, posso sentar contigo? - Falou um Sr. que parecia ter uma idade por volta de uns 80 anos. Estávamos no  Bosque do Sudoeste em Brasília - Vi você aí, por que está com esse computador em um parque? O dia está lindo. Posso sentar contigo? - Ele abriu um sorriso.

- Verdade. - Não estava muito com vontade de ter companhia e tinha um monte de trabalho para fazer. Mas, acenei para o Sr. sentar. Afastei um pouco para lhe dar espaço. 

Setembro é a época muito quente do ano, estava provavelmente uns 36ºC, às 16h00. Mesmo embaixo da sombra de uma árvore, sentia suor cair pela minha testa, contudo também fiquei admirado com a beleza da árvore que continuava verde apesar do clima seco. Os bancos eram de madeira com pés de pedra. Eu não queria companhia, mas ele sentou ao meu lado. Por um momento pensei em levantar e  ir embora.

- O que você faz? Estava trabalhando nesse calor?

-  Sou programador. - Fiquei com preguiça  de responder a segunda pergunta. Tinha perdido a concentração já. Fechei o laptop e pensei nos mil problemas do sistema que tinha que resolver. Então, desabotoei parte de minha camisa. Estava de camisa branca, jeans e tênis. E abri um sorriso quase que forçado para o Sr. e falei - Estava trabalhando, mas acabei por hoje.

- Que bom, assim posso conversar mais com você, estou esperando minha neta e bisneta. Não gosto muito da grama essa época do ano. Fica tudo parecendo morto com esse amarelado se graça. Não acha? Essa coisa de computador faz de tudo hoje, não é? Deve ser bom trabalhar com computadores. Eu trabalhava no Congresso. Era meio chato, mas pagava as contas. Estou aposentado, moro aqui no prédio do lado. - apontou para um prédio de 6 andares com uma bela fachada.

Sem parar, continuou falando.

- Você fala com um sotaque diferente acho que não é daqui, vem do Nordeste? Aqui aparece gente de todo o Brasil o tempo todo para trabalhar. Na minha época era pessoal para construir a cidade, hoje chega aqui médicos, advogados e a agora vocês que trabalham com computador. Você gosta de trabalhar com essas máquinas? Trabalha onde? Já tem família aqui?

- Não, ainda... - O Sr. falava quase sem parar na verdade. Só consegui responder a última pergunta dele. Antes de ser interrompido.

- Olhe, arrume logo uma namorada, isso de ficar sozinho não faz bem. Quem vem para cá tem que ter um relacionamento. Eu quando cheguei aqui em Brasília quis ir embora várias vezes até encontrar a Beatriz. Minha esposa. Sabe, ela morreu faz alguns anos. Tivemos filhos. Duas filhas e agora tenho netos e netas e hoje já sou bisavó da Lúcia. Ela é uma princesa você vai conhecer ela deve estar chegando aqui. 

Enquanto o Sr. falava olhei para meu tênis. Ele estava sujo da terra amarronzada do bosque. olhei para frente e vi um casal passeando com dois cachorros. Um saiu correndo atrás do outro e ficavam correndo e pulando de alegrei. E crianças jogando bola e rindo. Acho que deveria ter andado mais por esse parque nos últimos anos. O  Sr. continuou falando e falando. Perdi o que ele estava falando, porém ele parecia estar feliz.

- Então o que acha? - Ele me perguntou, mas confesso que me distrai e não sabia o que ele tinha perguntado. Então balancei a cabeça com um sinal de positivo mesmo sem saber o que ele perguntou.

Em seguida, o Sr. apontou  para entrada do parque.

- Olhe rapaz minha bisneta com a Lúcia! - o Sr. se levantou e se esticou todo levantando os braços como para mostrar que ele estava lá, vi uma menina de dois anos correndo desesperadamente. A bisneta dele veio correndo e deu-lhe um forte abraço na perna. Ele a pegou e jogou para cima e depois lhe deu um forte abraço. Sua neta, também apareceu para abraçá-lo.

Por fim, falou,

-Rapaz estou sempre por aqui. Apareça mais. Podemos conversar mais. - Acenei com a cabeça. Ele se despediu com um simples até mais e saiu correndo brincando com sua bisneta. 

Vi aquele Sr. abraçar sua neta e bisneta novamente. Olhei eles indo dar uma volta no parque e pouco depois os perdi de vista. Olhei novamente a árvore que  me dava sombra. Abri o notebook e voltei ao trabalho. Mas, um último pensamento me veio antes de começar a trabalhar.

Acho que a vida pode ser mais leve.
















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